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Os 10 Melhores Livros de Ficção Científica e Fantasia


Uma coisa é certa: ficção científica e fantasia são muito mais importantes para a literatura norte-americana do que para a brasileira. No Brasil o gênero fica meio de lado, num submundo literal. Não me refiro a qualidade das obras, não entro nesse mérito, escrevo sobre reconhecimento. Escritores de ficção científica e fantasia no Brasil não são, e nunca foram, devidamente reconhecidos.
Enquanto isso, a situação nos Estados Unidos (e na Inglaterra por reboque) é mais favorável, indiscutivelmente. Autores como Isaac Asimov e Tolkien gozaram de prestígio e admiração no meio literário, e não apenas nos círculos dos seus gêneros. Foram elevados ao patamar de mestres da literatura, escrevendo a mais rigorosa ficção.
Tive um exemplo ao realizar a pesquisa para essa lista. Pesquise “melhores livros de ficção científica”. Ok. Agora pesquise “Best science fiction novels”. Diferença abismal. A quantidade e qualidade de trabalhos autorais específicos sobre sci-fi entre os países é incomparável. Por isso, decidi traduzir uma das listas gringas.
O livro “Science Fiction: The 100 Best Novels : An English-Language Selection” de David Pringle seleciona os livros por ano de publicação, no melhor estilo “leia antes de morrer”. Fica o registro. Selecionei como fonte a lista de Alex Carnevale, do site This Recording. No site, você pode conferir breves descrições (em inglês) e as capa norte-americana dos 100 melhores livros.
Existem várias listas com opiniões conflitantes. Em ficção científica nada é muito definitivo.  Qualquer outra lista que você encontrar terá opiniões muito divergentes. Então vamos lá, chega de papo-furado – Os 10 Melhores Livros de Ficção e Fantasia de Todos os Tempos:
.

#1. Gene Wolfe – The Book of the Long Sun
.

#2. Robert Heinlein – The Moon is a Harsh Mistress (Revolta na Lua)
.


#3. Jack Vance – The Dying Earth (A Agonia da Terra)
.


#4. Ursula K. LeGuin – The Dispossessed (Os Despossuídos)
.


#5 Guy Gavriel Kay – Tigana
.

#6 Mary Shelley – Frankenstein
.

#7 Aldous Huxley – Brave New World (Admirável Mundo Novo)
.


#8 Gene Wolfe – The Book of the New Sun (O Livro do Novo Sol)
.


#9 Ursula K. LeGuin – The Left Hand of Darkness (A Mão Esquerda da Escuridão)
.


#10 Anthony Burgess – A Clockwork Orange (Laranja Mecânica)
.

No site This Recording você encontrará o restante do Top100 (Senhor dos Anéis, 1984, O Mágico de Oz, Alice no País das Maravilhas, Duna, Matadouro 5, As Brumas de Avalon, etc…) Confira!

by Mais1Livro

PHILIP K. DICK VOLTA À CENA COM LIVRO E UMA SÉRIE DE PRODUÇÕES BASEADAS EM SUAS HISTÓRIAS


Você pode até não saber quem é Philip K. Dick, mas com certeza você já ouviu falar de pelo menos um dos filmes baseados no que ele escreveu. Afinal de contas, a obra do escritor americano gerou adaptações milionárias para a telona, como Blade runner: o caçador de androides,Minority report: a nova lei e O homem duplo, todos com grandes nomes como atores principais e excelentes diretores por trás das câmeras.
E vem aí mais uma avalanche de filmes inspirados em suas obras. O diretor francês Michel Gondry (O besouro verde) está adaptando para o cinema o livro Ubik, considerado pela revista Time um dos 100 melhores romances em língua inglesa – mostra o planejamento que pessoas mortas fazem de suas próximas vidas. O diretor Ridley Scott, que dirigiu Blade runner, está produzindo série baseada no mundo em que os nazistas venceram a Segunda Guerra, tema do livro O homem do castelo alto. E o longa Os agentes do destino, com Matt Damon, adaptado do conto “Adjustment Bureau”, tem estreia prevista para este mês no Brasil.
 Outra boa notícia é que, depois de um tempo sumido das prateleiras, Philip K. Dick volta a ser encontrado com facilidade nas livrarias. O lançamento mais recente do autor no Brasil é Os três estigmas de Palmer Eldritch, publicado pela Editora Aleph e escrito originalmente em 1964. No livro, Philip K. Dick mescla religião, colonização de outros planetas e um tema extremamente atual: o aquecimento global, que leva as pessoas a usarem aparelhos de ar-condicionado portáteis e a passar férias na Antártida para fugir do calor. Qualquer semelhança com o noticiário cada vez mais alarmante com o clima pode não ser mera coincidência. A obra se junta a outras publicações recentes do autor no país, como O caçador de androides, que baseou o hoje clássico Blade runner, e O homem do castelo alto, que mostra uma distopia em que os nazistas venceram a Segunda Guerra.
 Nem sempre foi assim. Depois dos anos 1980, quando teve inúmeros livros publicados no país e edições importadas de Portugal ajudavam a disseminar as obras, o autor praticamente desapareceu das livrarias, com exceção de uma ou outra publicação pontual, baseada na adaptação de algum livro para o cinema. Só a partir de 2006, com a publicação de O homem do castelo alto, ele passou a merecer uma atenção melhor tanto do mercado quanto dos leitores.
Temas atuais
Marcos Fernando de Barros Lima, produtor editorial da Editora Aleph, uma das responsáveis pelo retorno do autor às prateleiras, afirma que, “sendo Philip K. Dick um dos autores mais renomados da área de ficção científica, ele faz parte da proposta da editora de resgatar os clássicos desse ramo da literatura, que merece mais atenção e destaque”. Segundo ele, os livros estão vendendo bem. Para o produtor, as obras do escritor americano voltaram a interessar o público pelo fato de tratarem de temas que estão em discussão hoje em dia, mesmo tendo sido escritas há mais de 40 anos.
“Philip K. Dick tem potencial suficiente para atingir diversos tipos de leitores. Em seus livros, trata de temas muito atuais, como aquecimento global, drogas e aborda questões filosóficas, espirituais e tecnológicas”, explica. De fato, esta mistura entre tecnologia e misticismo é marcante na obra de Philip K. Dick. Um dos precursores do gênero cyberpunk, ele passou cada vez mais a incrementar o cenário hi-tech de seus livros com abordagem sobre abusos de drogas, parapsicologia, sem falar em questionamentos religiosos, baseados principalmente nas próprias experiências no assunto. Em 1974, passou por momento de delírio. Acreditava ter vida dupla, como escritor no século 20 e cristão perseguido pelos romanos no século 1. A experiência, claro, marcou seu trabalho, principalmente nos escritos no fim da vida, como Valis.
Para este ano, não há mais lançamentos previstos, mas isso não é necessariamente uma notícia ruim. Além de os livros do autor seguirem no prelo para novas traduções, dá tempo de quem se interessar pelo estranho universo de Philip K. Dick se inteirar do assunto. Afinal, é sempre bom saber como vai ser o mundo quando a temperatura média bater os 50 graus.
Para começar a ler
A bibliografia de Philip K. Dick é vasta. São 36 romances e centenas de contos que o autor produziu entre 1950 e 1982. Muito pouco do que ele publicou chegou a ser traduzido no Brasil e os livros encontrados com maior facilidade são os publicados pelas editoras Aleph e Rocco, que dividem os direitos do autor no país. Duas boas portas de entrada para o mundo de Dick são O caçador de androides e O homem do castelo alto.
Se o leitor tiver disposição de explorar sebos, as opções de leitura ficam mais diversificadas. As edições portuguesas da Editora Europa-América e os livros publicados nos anos 1980 pelas editoras Melhoramentos e Brasiliense, como O labirinto da morte e Os clãs da lua Alfa, podem ser encontrados com facilidade pelas estantes, apesar de estarem esgotados há vários anos.
Livros de Philip K. Dick no Brasil
Pela Editora Aleph
O homem do castelo alto (304 páginas, R$ 44)
Os três estigmas de Palmer Eldricht (248 páginas, R$ 42)
Ubik (238 páginas, R$ 42)
Valis (304 páginas, R$ 44)
Pela Editora Rocco
O caçador de androides (256 páginas, R$ 36)
O homem duplo (308 páginas, R$ 38,50)
Vozes da rua (432 páginas, R$ 58,50)
Inspiração do cinema
Sem dúvidas, o filme mais famoso baseado em uma obra de Philip K. Dick é Blade runner: o caçador de androides. O trabalho foi o primeiro a ser adaptado, em 1982, pelo diretor Ridley Scott. Com Harrison Ford no papel de Deckart, um policial cujo trabalho é perseguir os replicantes, robôs que são idênticos aos humanos, mas estão fora da lei. O visual impressionante da Los Angeles futurista, onde não há animais de carne e osso e a vida está se extinguindo, juntamente com a trilha criada por Vangelis, ajudou a catapultar o filme para o status de cult. Philip K. Dick em pessoa chegou a visitar o set de filmagens e aprovar tudo que estava sendo feito, antes de morrer de um AVC, seis meses antes do lançamento do filme.
Além do clássico, vários outros filmes alcançaram sucesso razoável e contaram com grandes estrelas em papéis principais e por trás das câmeras. O vingador do futuro (1990) traz no elenco Sharon Stone e Arnold Schwarzenegger, que interpreta um homem que vai até Marte em busca de respostas para suas memórias implantadas. Minority report (2002) foi dirigido por Steven Spielberg e tem Tom Cruise no papel do policial que precisa proteger uma paranormal que prevê crimes.
Já O homem duplo, de 2006, conta com Richard Linklater (Waking life, Escola do rock), além de uma trinca de atores de fazer inveja. Keanu Reeves tem o papel principal, um detetive que se infiltra em um grupo de viciados na droga Substância D para descobrir quem a produz. Winona Ryder faz a namorada do policial e Robert Downey Jr. é um dos dependentes químicos. Para quem ficou com vontade de ver: todos estão disponíveis em DVD e podem ser facilmente encontrados até em grandes lojas de departamento.
Poster Teaser Ubik
 Filmografia
. Blade runner: o caçador de androides, de 1982. Dirigido por Ridley Scott, com Harrison Ford. Baseado no livro Caçador de androides
. O vingador do futuro, de 1990. Dirigido por Paul Verhoeven, com Arnold Schwarzenegger e Sharon Stone. Baseado no conto “Podemos recordar para você, por um preço razoável”
. Confissões de um louco, de 1992. Dirigido por Jérôme Boivin. Baseado no livro Confessions of a crap artist
. Screamers: assassinos cibernéticos, de 1995. Dirigido por Christian Duguay. Baseado no conto “Second Variety”
. O impostor, de 2002. Dirigido por Gary Fleder. Baseado no conto “Impostor”
. Minority report: a nova lei, de 2002. Dirigido por Steven Spielberg, com Tom Cruise. Baseado no conto “The Minority report”
. O pagamento, de 2003. Dirigido por John Woo, baseado na história “Paycheck”
. O homem duplo, de 2006. Dirigido por Richard Linklater, com Keanu Reeves, Winona Ryder e Robert Downey Jr. Baseado no livro O homem duplo
. O vidente, de 2007. Dirigido por Lee Tamahori, baseado no conto “The Golden Man”

fonte: >> UAI – por João Renato Faria

Ubik: Mais Philip K. Dick nos Cinemas

 

Ubik, livro de ficção científica foi escrito por Philip K. Dick, o mesmo autor da obra que serviu de base para o filme Blade Runner - O Caçador de Androides, O Vingador do Futuro, Minority Report-a nova lei, O Vidente, O Homem Duplo...

De acordo com o site Deadline, Michel Gondry está adaptando para as telonas Ubik (1969), romance de ficção científica do falecido Philip K. Dick que foi considerado pela revista Time um dos melhores 100 de todos os tempos. Gondry, provavelmente, também irá dirigir a versão cinematográfica da obra.

A história metafísica se passa em 1992 (ou seja, para a época, era futurista) e retrata a morte e a salvação ao mostrar pessoas mortas confabulando e planejando sua próxima encarnação.

Steve Zaillian e Steve Golin estão cuidando da produção por meio das empresas Film Rites e Anonymous Content. Enquanto nenhum estúdio abraça o projeto, Golin está fornecendo o financiamento necessário para que a ideia seja desenvolvida. Garrett Basch assume como produtor executivo.

Gondry confirmou ao site Allocine que a adaptação do livro está na sua lista projetos, mas ele ainda não definiu qual será seu próximo filme.

A história de Ubik, gira em torno de um homem que trabalha em uma empresa de segurança especializada em bloquear espionagem telepática. A empresa começa a ter dificuldades após aceitar um trabalho na lua.

O filme mais recente de Gondry, foi “Besouro Verde”.
O Diretor Michel Gondry
Vale lembrar que Philip K. Dick é, também, autor de Androides Sonham Com Carneiros Elétricos, que serviu de base para o premiado longa Blade Runner - O Caçador de Androides (1982). Mais dois livros dele estão sendo levados às telonas: seu conto Adjustment Bureau virou o filme Os Agentes do Destino, que deve estreiar em abril por aqui, com Matt Damon e Emily Blunt no elenco. Já Podemos adiantar para você que O Vingador do Futuro, com Arnold Schwarzenegger e Sharon Stone, ganhará um remake em 2012 com Colin Farrell estrelando.

William Gibson - NEUROMANCER



Muitos assistiram ao filme Matrix dos irmãos Andy e Larry Wachowski provavelmente acharam que o filme trata de um tema contemporâneo. Pois, poucos sabem que a própria Matrix foi retirada do universo criado por William Gibson, autor de Neuromancer, um livro escrito em 1983 em uma antiga máquina de escrever. Mais de 25 anos depois de seu lançamento, essa obra, considerada por muitos o ponto inicial do movimento cyberpunk, se tornou uma leitura atemporal e continua influenciando a nossa sociedade.

"Ser e Existir são a Realidade total
A diferença entre Ser e Existir,
É apenas de nomes"
Lao-Tse in Tao Te King


Imagine descobrir um continente tão vasto que suas dimensões talvez
não tenham fim. Imagine um novo mundo com mais recursos que toda a
nossa futura ganância poderia esgotar, com mais oportunidades do que os
empresários poderiam explorar. Um lugar muito particular que se expande
com o crescimento.
Imagine um mundo onde os transgressores não deixam pegadas; onde as
coisas podem ser furtadas um número infinito de vezes e ainda assim
ficarem na posse dos seus donos originais; onde coisas de que você nunca
ouviu falar possuam a história dos seus assuntos pessoais; onde a física é
aquela do pensamento que transcende o mundo material; e, onde cada um é
uma realidade tão verdadeira como as sombras da caverna de Platão.
Tal lugar realmente existe, se lugar for uma palavra apropriada. Ele é
formado por estados de elétrons, microondas, campos magnéticos, pulsos de
luz e pensamento próprio — uma onda na rede dos nossos processamentos
eletrônicos e sistemas de comunicação. Costumava-se chamá-lo de "Esfera
de Dados" até que surgiu, em 1984, o livro Neuromancer, de William
Gibson, que lhe deu o nome evocativo de "Ciberespaço".
Uma data pode marcar o aniversário da publicação de um livro, do
nascimento ou morte de seu autor. Nessas ocasiões, pode-se prestar uma
homenagem — ainda que puramente convencional —, acendendo algumas
velas que, na maioria das vezes, apenas lançam uma fraca luz sobre o
escritor e sua obra.
Em relação ao ano de 1984, no entanto, passa-se algo intrigante. Ele é o
próprio título de um livro — o romance 1984, de George Orwell — que
tornou seu autor mundialmente famoso. E, curiosa coincidência, foi o ano de
publicação de Neuromancer.
Para Orwell, a data não teve significação precisa, ele apenas inverteu os
dois últimos algarismos do ano em que o livro foi concluído: 1948. Que, por
outra curiosa coincidência, foi o ano de nascimento de William Gibson.
Coincidências à parte, William Gibson falou de um mundo conhecido
pela maioria das pessoas como o "local" por onde toda informação,
transferida digital ou eletronicamente, circula ou é armazenada. Todo dia,
milhões de pessoas usam terminais de computadores e cartões de crédito,
dão telefonemas, reservam viagens e acessam informações de uma variedade
sem limites, sem qualquer percepção clara das máquinas digitais que estão
por trás dessas transações.
Nossas vidas financeiras, legais e até mesmo físicas estão cada vez mais
dependentes de realidades das quais temos apenas uma obscura consciência.
Nós confiamos as funções básicas da existência moderna a instituições que
não podemos definir, usando instrumentos de que nunca ouvimos falar.
Quase todos agora suspeitam de que em algum lugar lá fora existem
discos rígidos contendo informações sobre a vida pessoal de cada um —
informação que pode ser ou não correta, mas que seria preferível que
ninguém soubesse — ou pior, sabe-se que pouco pode ser feito para alterar
essa condição.
Mas, se não temos poder sobre esse "lugar" por onde transitam as
informações, é importante sabermos seu conceito, pois como bem escreveu o
pensador espanhol Ortega y Gasset em seu livro Meditações do Quixote,
"sem o conceito não sabemos bem onde começa e onde termina uma coisa.
O conceito nos dá a forma, o sentido das coisas".
Para Gibson, o conceito de ciberespaço é o de "uma alucinação
consensual que pode ser experimentada diariamente pelos usuários através
de softwares especiais... Uma representação gráfica de dados retirados dos
bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade
impensável... Linhas de luz que abrangem o universo não-espacial da mente,
nebulosas e constelações infindáveis de dados... É também realidade virtual".
Essa dimensão criada por computador e à qual o usuário tem acesso
direto, sensorialmente, não é uma criação original de Gibson — nem
pretendeu ser — mas foi ele quem lhe deu forma e nome e, graças às
informações "técnicas" contidas em seu Neuromancer, a Nasa desenvolveu
uma tecnologia de "realidade virtual" proporcionada pelo ciberespaço.
Como podemos perceber, ciberespaço e realidade virtual não são a
mesma coisa. O ciberespaço é algo amplo e bastante complexo, ele cristaliza
a rede atual de linhas de comunicação e bancos de dados num pseudocosmos
colorido, uma "alucinação consensual" através da qual informações e
pessoas circulam como se fossem a mesma coisa. Diga-se, esclarece o
jornalista Julian Dibbel, que; de fato, dados e homens se equivalem no
ciberespaço, um "lugar" onde os cubos, globos e pirâmides de informação
são tão "reais" quanto a própria autoprojeção de uma pessoa. O ciberespaço
é a pátria e terra natal da era da informação — o lugar onde os cidadãos do
futuro estão destinados a habitar. É onde se produz a realidade virtual criada
pelo computador como uma espécie de linguagem para uma comunicação
mais direta e não através de símbolos.
A realidade virtual é um impulso elétrico dentro de um circuito do
computador que se mostra através de simulações do mundo real. Através da
combinação de TV de alta definição, fibras óticas e computadores de última
geração, um usuário do sistema integra-se fisicamente à "realidade"
eletrônica. Seu uso como mecanismo de simulação está sendo largamente
estudado graças às suas inúmeras aplicações, como na arquitetura onde é
usado por engenheiros que simulam operações, caminham pela construção,
mudam a posição de colunas ou portas apenas com o movimento das mãos.
Na Nasa é usado para o conserto de satélites. O astronauta usa um capacete
em que ele pode ver as mesmas coisas que o robô está "vendo" e usando
luvas especiais pode fazer movimentos que serão duplicados pelos robô,
dando ao humano a impressão de estar fazendo pessoalmente o conserto.
Outras aplicações se dão na medicina — com simuladores cirúrgicos — ou
nos videogames que popularizam a realidade virtual, além de centenas de
outras possibilidades, como o sexo virtual.
No Neuromancer, Gibson também se utiliza do sistema simstim —
simulated stimulation — que é uma forma de "entretenimento" futurista, na
qual é possível "plugar" uma mente no corpo de outra pessoa. "Uma
brincadeira da carne", diz Case, o personagem do livro. Na verdade, o
usuário entra em recriações das experiência e sensações de uma pessoa e,
através dessa "estimulação simulada", vivência as experiências e sensações
do outro.
Mas, enquanto Gibson desenhou uma nova realidade, escrevendo sobre
coisas 60 ou 70 anos no futuro, falando de tendências que detectamos hoje,
George Orwell, em 1984, criou um mundo imaginário como uma metáfora
da opressão pública e uma advertência à humanidade.
Ainda que os acontecimentos descritos por Orwell em seu livro não
tenham ocorrido nas datas e da maneira previstas, ele materializava as
preocupações do mundo com os horrores produzidos sob o totalitarismo,
fosse ele o de Hitler ou de Stalin. O romance não pretendeu ser profético,
situando-se antes como um estudo da perda da liberdade em suas últimas
conseqüências. Mas, o mundo de loucura e opressão mostrado no livro é
impressionante na medida em que é perfeitamente possível. O controle da
mente humana e da verdade histórica pelo Estado são realidades do século
XX.
Nesse futuro de pesadelo, 1984 mostra um mundo onde os sentimentos
são vigiados e proibidos. "Se você quer uma imagem do futuro", diz o
inquisidor ao personagem, "imagine uma bota esmagando um rosto
humano... para sempre". O que interessa ao Estado aqui, lembra o jornalista
Ulisses Moulines, não é a mera submissão física, mas a entrega total da
pessoa, em corpo e alma, a seus carrascos. A metáfora da bota triturando o
rosto não deve ser entendida e limitada ao seu sentido físico. Trata-se
também, e sobretudo, de esmagar o pensamento individual. O método para
alcançar esse objetivo é uma combinação de procedimentos físicos,
fisiológicos e psicológicos, mas o que mais conta são os últimos. É claro que
os torturadores fazem uso da violência física em grande escala: são
generosos em bordoadas, pontapés nas partes genitais, fome, exposição a
ruídos e odores insuportáveis, aplicação de choques elétricos e humilhações
de todos os tipos.
Mas este é apenas o início do processo de destruição da personalidade
rebelde. Esses usos, típicos do fascismo corrente, são complementados com
a persuasão "dialética" da vítima, por meio da conversação direta e pessoal
com o Intelectual-Policial.
 As características essenciais desta segunda fase, pressentidas por Arthur
Koestler em O Zero e o Infinito, aparecem reveladas na parte final do livro.
Já não se trata aqui de infligir dores insuportáveis à superfície do corpo ou às
vísceras, nem sequer de maltratar o sistema nervoso com eletrochoques e
drogas.
Trata-se de chegar ao mais profundo, ao mais íntimo do intelecto, às
convicções mais arraigadas, aos sentimentos mais autênticos, e de dar-lhes
uma volta, como a um parafuso. Trata-se de fazer passar da convicção de
que dois e dois são quatro, independentemente de quem o diga ou de quando
o diga, para a admissão plena de que podem ser cinco, ou três, ou qualquer
outra coisa que ocorra ao Estado, no momento em que lhe ocorra.
Segundo Orwell, o instrumento para conseguir essa transição é,
fundamentalmente, a palavra. Por meio do uso da linguagem, viola-se a
própria linguagem e, com ela, o pensamento. "As palavras são, ao mesmo
tempo, indispensáveis e fatais", dizia Aldous Huxley. "As palavras são as
drogas mais poderosas que a humanidade conhece", dizia Rudyard Kipling.
Como todo o resto, da energia atômica ao curare e à morfina, tudo depende
da dose e da oportunidade para fazer de determinada coisa extraordinário
benefício ou um fator de destruição.
Os profetas da comunicação estão provavelmente certos quando dizem
que os conceitos tradicionais de capital e trabalho serão substituídos por
aqueles do conhecimento e da informação. A mercadoria do futuro estará
contida num disquete, ou num vídeo, mas isso não muda muita coisa do
problema, como bem salienta o escritor e jornalista Luiz Carlos Lisboa em
um excelente texto sobre as mitologias da comunicação.
 O videotexto, o videocassete, os microcomputadores, os satélites
domésticos, as fibras óticas não podem ser compreendidos apenas do ponto
de vista técnico — e é inteiramente inútil denunciar a tecnologia. "Quando
existem tantas imagens disponíveis num Cosmo inundado de simbolismo",
diz Max Lerner, professor da Universidade de Notre-Dame, "o que conta
como poder é a seleção dessas imagens".
E aí surge a outra face do problema: a manipulação da nova mercadoria.
Aquele poder de selecionar é o que faz, mais do que nunca, o poder no
mundo contemporâneo.
Por isso nos detemos um pouco — em forma de contraponto — nas
colocações de Orwell, já que nas projeções de futuro de Gibson — a partir
da constatação de que os veículos de comunicação despejam toneladas de
dados sobre os nossos sentidos, diariamente — as gigantescas corporações
multinacionais têm tanto ou mais poder do que os governos, manifestado
justamente através do controle do fluxo de informações, produtos e serviços.
Enquanto que para Orwell o poder é exercido pelo Estado através da
figura única do Grande Irmão — "Quem controla o passado, controla o
futuro", diz um dos slogans do Estado, "e quem controla o presente, controla
o passado" — é o mundo dos parafusos perfeitos — para a nova realidade de
Gibson o futuro não permite o controlador único.
Ele sabe que desde aquele momento em março de 1876 que um tal de
senhor Watson encontrou o senhor Graham Bell em um lugar — que Gibson
chamou de ciberespaço — o poder passou progressivamente a ser de quem
controla o fluxo das informações.
Com o avanço da tecnologia de processamento de informações e
comunicações em passo muitas vezes mais rápido do que a sociedade pode
assimilá-lo, poucos notaram o emergente domínio existente, apesar do fato
de que a grane maioria de nós usa suas fontes diariamente. A imaginação
mais fecunda, afirma Lisboa, é impotente para conceber os desdobramentos
possíveis do mundo das comunicações nesse futuro que se aproxima.
Prever com exatidão está além de qualquer possibilidade humana, é
claro, mas divagar sobre tendências conhecidas leva a uma visão aproximada
do que será esse amanhã fantástico. E divagar, fantasiar, aludir sempre foram
recursos de que se valeram os que quiseram falar do imponderável, sem as
peias do formalismo, sem os embaraços da sisudez e o estorvo do
academicismo. O prazer da fantasia consiste nessa liberdade de que se
desfruta na criação, onde uma disciplina muito especial substitui as regras,
os conceitos e as imposições culturais.
Os trabalhos sistemáticos e as exposições rigorosas têm seu lugar no
mundo, mas é na intuição — no espaço entre dois pensamentos racionais —
que está o sal da terra, ou como nos ensina Lisboa, a fonte que abastece os
mananciais da inteligência, e que de algum modo justifica as academias, as
bibliotecas e todos os demais recursos pelos quais o homem procura
acumular os relâmpagos de sabedoria e o material precioso que vai
encontrando pelo caminho.
Alguns momentos de contato com essa realidade — e nada melhor que
uma crise para desatrelar a criatividade — são suficientes para abastecer o
espírito para uma longa caminhada pela vida, com a fruição plena do
trabalho, da beleza e do milagre que é tudo isso.
William Gibson, ao lado de Bruce Sterling, Lewis Shiner, John Shirley,
Rudy Rucker, detectou, no início dos anos 80, uma enorme crise na Ficção
Científica. Essa crise, segundo eles, motivou-os justamente a provocarem
uma revisão das visões de futuro realizadas até então, estabelecendo assim o
início de uma nova tendência no gênero: o Movimento Cyberpunk.
Se em 1984 detectamos a preocupação de Orwell com o uso da
linguagem para fins políticos, com o Neuromancer, Gibson pensava antes
em criticar e combater deliberadamente aspectos da Ficção Científica que
considerava reacionários, fora de moda e entediantes.
Zeitgeist é a palavra com que os alemães designam "o espírito da época",
aquilo que vigora com força inexplicável em determinado lugar e em certo
período. A consagração de conceitos, a proibição de idéias, a tendência para
certas conclusões, a cegueira para coisas que serão visíveis séculos depois ou
foram largamente entendidas séculos antes: é o espírito do Zeitgeist.
Nossa capacidade de ver e escutar depende desses valores, das suas
imposições e rejeições. Escritores, artistas, inventores e iluminados
disseram, no passado, que o mundo não estava preparado para as inovações
que lhe traziam. Essa é uma forma de dizer que o número de pessoas capaz
de escutar determinada coisa é muito pequeno, o que torna seu enunciado
inútil ou até mesmo perigoso. Não existe tarefa mais difícil que caminhar
contra as tendências e imposições de uma época.
Tanto para Gibson como para Sterling, Shiner, Shirley e Rucker — ou
como eles se batizaram, "O Movimento", sendo que a expressão
"Cyberpunk" apareceria depois, cunhada por Gardner Dezois, editor-chefe
da Isaac Asimov Magazine americana — toda crítica e combate que faziam
era para demonstrar seu descontentamento com a Ficção Científica que se
produzia na época e que, para eles, parecia incapaz de evoluir com as cada
vez maiores e mais rápidas mudanças na tecnologia e na sociedade.
Verdadeiro Zeitgeist.
Neuromancer levanta, sem dúvida, algumas questões e especulações
sobre o caminho da sociedade de amanhã e o seu funcionamento. Mas,
fundamentalmente, possibilita-nos ver que a Ciência, como bem disse a
professora Verônica Rapp, do Centro de Medicina Nuclear da USP, está
novamente no limiar de uma série de transformações, cujas conseqüências
podem ter um alcance ainda maior do que aquelas que emergiram das
revoluções de Copérnico, Newton, Darwin e Freud.
Questões relativas à consciência e à percepção, à realidade e conceitos,
experiências subjetivas e transpessoais, as raízes dos postulados dos valores
fundamentais e assuntos correlatos constituem hoje um grupo de
preocupações que, tal e qual aquelas relativas ao universo físico, começam a
se deslocar da esfera das investigações teológicas e filosóficas para o
domínio da pesquisa empírica.
Existe uma relação recíproca, nos lembra a professora Verônica, entre a
pesquisa científica e a sociedade em que ela emerge. Os conhecimentos
científicos geram aplicações tecnológicas que, por sua vez, modificam o
ambiente cultural.
O mito de Prometeu ilustra magistralmente este aspecto da Ciência. O
audacioso Prometeu roubou o fogo dos deuses e, dessa maneira, deu ao
homem o controle sobre o seu próprio destino. Epimeteu, seu irmão,
deleitava-se em brincar com aquelas descobertas, inconsciente das suas
conseqüências. Irados com o roubo, os deuses vingaram-se: enviaram a
Epimeteu uma esposa, Pandora; ela possuía uma caixa que, uma vez aberta,
derramava sobre a humanidade doenças e aflições; somente a Esperança
permanecia na caixa, a fim de preservar o equilíbrio mental do homem
diante de seu novo infortúnio.
Segundo Conant, a ciência clássica assenta sobre os seguintes axiomas:
1- a razão é o instrumento supremo da humanidade; 2- o universo é
basicamente físico e ordenado; 3- essa ordem pode ser descoberta pela
ciência e definida objetivamente; 4- a observação e a experimentação são os
únicos meios válidos para a descoberta; 5- os conhecimentos adquiridos pelo
uso da razão libertarão a humanidade da ignorância e a conduzirão para um
futuro melhor.
 Tais axiomas, no entanto, frente aos recentes progressos em diversas
fronteiras da indagação científica, tornaram-se menos seguros. No século
XX, diz Frítjof Capra em seu livro O Ponto de Mutação, a física passou por
várias revoluções conceituais que revelam claramente as limitações da visão
de mundo mecanicista. O universo deixou de ser visto como uma máquina,
composta por uma profusão de objetos distintos para apresentar-se agora
como um todo harmonioso e indivisível, uma rede de relações dinâmicas que
incluem o observador humano e sua consciência de em modo essencial.
Uma das principais lições que os físicos tiveram que aprender neste
século foi o fato de que todos os conceitos e teoria que usamos para
descrever a natureza são limitados. Em virtude das limitações essenciais da
mente racional, temos de aceitar o fato de que, como disse o físico alemão
Werner Heisenberg, "toda palavra e todo conceito, por mais claros que
possam parecer, têm apenas uma limitada gama de aplicabilidade". As
teorias científicas não estarão nunca aptas a fornecer uma descrição
completa e definitiva da realidade. Serão sempre aproximações da
verdadeira natureza das coisas. Em termos claros: os cientistas não lidam
com a verdade; eles lidam com descrições da realidade limitadas e
aproximadas.
 No início do século, continua Capra, quando os físicos estenderam o
alcance de suas investigações aos domínios dos fenômenos atômicos e
subatômicos, tomaram consciência das limitações de suas idéias clássicas e
tiveram que rever radicalmente muitos de seus conceitos básicos acerca da
realidade. A experiência de terem que questionar a própria base de sua
estrutura conceitual e de se verem forçados a aceitar profundas modificações
de suas mais caras idéias foi marcante e, freqüentemente, dolorosa para esses
cientistas, sobretudo durante as primeiras três décadas do século, mas foi
recompensada por insights profundos da natureza da matéria e da mente
humana.

A partir das mudanças revolucionárias em nossos conceitos de realidade
ocasionadas pela física moderna, uma nova e consistente visão de mundo
começa a surgir. Essa visão não é compartilhada por toda a comunidade
científica, mas está sendo discutida e elaborada por muitos físicos eminentes
cujo interesse em sua ciência supera os aspectos de suas pesquisas. Esses
cientistas se mostram profundamente interessados nas implicações
filosóficas da física moderna e estão tentando, com espírito aberto, melhorar
sua compreensão da natureza da realidade.
Segundo Capra, a visão de mundo que está surgindo a partir da física
moderna, em contraste com a concepção mecanicista cartesiana, pode
caracterizar-se por palavras como orgânica, holística e ecológica. Pode ser
também denominada visão sistemática, no sentido da teoria geral dos
sistemas, que, em essência, é uma tentativa de integrar, em termos racionais,
os diferentes conhecimentos obtidos nos vários ramos de pesquisa. Ela
procura ser, ao mesmo tempo, holística e empírica. Sua proposição básica é
que as leis e os princípios que governam os sistemas relacionados com uma
área do conhecimento provavelmente são também importantes para outra
área do conhecimento.
O universo deixa de ser visto como uma máquina, composta de uma
infinidade de objetos, para ser descrito como um todo dinâmico, indivisível,
cujas partes estão essencialmente inter-relacionadas e só podem ser
entendidas como modelos de um processo cósmico.
Na alegoria da caverna, Platão dramatiza a ascese do conhecimento.
Descreve um prisioneiro que contempla, no fundo de uma caverna, os
reflexos de simulacros que — sem que ele possa ver — são transportados à
frente de um fogo artificial. Como sempre viu essas projeções de artefatos,
toma-os por realidade e permanece iludido. A situação desmonta-se e
inverte-se desde o momento que o prisioneiro se liberta: reconhece o engano
em que permanecera, descobre a "encenação" que até então o enganara e,
depois de galgar a rampa que conduz à saída da caverna, pode lá fora
começar a contemplar a verdadeira realidade. Aos poucos, ele, que fora
habituado a sombra, vai podendo olhar o mundo real: primeiro através de
reflexos — como o do céu estrelado refletindo na superfície das águas
tranqüilas —, até finalmente ter condições para olhar diretamente para o Sol,
fonte de toda luz e de toda realidade.
Essa alegoria de múltipla dimensão pode ser vista tanto como fabulação
da ascese religiosa, como da filosófica e da científica, além de guardar uma
evidente conotação política, que o contexto da República não permite
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negligenciar. Mas fundamentalmente possibilita a discussão do conceito de
realidade e do que é verdadeiro.
Os gregos antigos não tinham uma palavra para "verdade". Quando
queriam designar alguma coisa manifesta, evidente, perceptível, usavam a
palavra alethes. Sua percepção penetrante da realidade ensinava-lhes
algumas lições surpreendentes, inclusive essa da verdade não ser estática,
algo que permanece no tempo, mas uma descoberta que pode ser feita
momento a momento.
Chamar alguma coisa de "verdade" eqüivale atribuir a essa coisa um
rigor dogmático, uma rigidez que conduz à esclerose. Os antigos gregos
sabiam o que estavam fazendo quando se referiam apenas ao manifesto, ao
evidente, ao aberto, ao presente.
Tomar a realidade simples de cada dia e desmontá-la peça por peça não
implica um exercício racional e metódico, afirma Luiz Carlos Lisboa. O que
chamam de racionalidade e método costumam ser, freqüentemente,
elaborados rosários de palavras, hábeis montagens que projetam seriedade
graças as complexidades que ostentam. O envoltório para ser compreendido.
"O real é nossa mente comum", dizem os patriarcas do Zen. Soa
estranhamente aos nossos ouvidos condicionados à idéia de que tudo está
contido na simplicidade do cotidiano. Costumamos até invalidar todo
conceito novo, sem maiores exames, atribuindo veredictos que encerram
uma discussão e fecham portas.
A naturalidade com que a vida mistura os ingredientes do cotidiano
simples com o fantástico mais arrebatados permite que o comum das pessoas
passe pela revolução que opera sob seus olhos a todo instante sem a maior
comoção. Não é bem, como dizia Oscar Wilde, que "a vida imita a arte", mas
que a arte capaz de imitar bem a vida se torna a mais eficaz, sendo
considerada a mais competente.
A Ficção Científica é, muitas vezes, um exercício, um esforço para se
libertar de todos os convencionalismos, para imaginar mudanças em nossa
sociedade, sacudir os conceitos estabelecidos, inventar situações absurdas
para depois jogar com elas, analisá-las em termos do cotidiano, situar o
homem e seus problemas por ângulos inusitados e atualmente impossíveis.
Como disse o escritor russo Alexander Kasantsev: "o homem é dotado de
imaginação e capaz de conceber coisas que não existem. Por seu
pensamento, pode conquistar o tempo e o espaço, explorar mundos
desconhecidos, fazer avançar as fronteiras da Ciência. Porque não pode
haver ciência sem ficção."
A Ficção Científica é, pois, um avanço de imagens futuristas e
possibilidades alternativas, um repositório literário das esperanças, receios e
conjecturas de homens e mulheres relativamente à condição evolutiva da
humanidade e, por conseguinte, um inestimável campo de treinamento para
seus leitores na antecipação e criação de coisas vindouras.

Sílvio Alexandre

George Orwell

25/06/1903, Bengala (Índia)
21/01/1950, Londres (Inglaterra)

George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, nasceu em 25 de junho de 1903, na cidade de Motihari, Bengala, região da Índia. De família inglesa, seu pai era funcionário da administração do império britânico. Ainda criança, sua família retornou à Inglaterra. Foi educado em escolas tradicionais inglesas. Em 1922, entrou para a polícia colonial britânica, servindo na Birmânia. Em janeiro de 1928, pediu demissão e retornou à Europa, onde viveu um período difícil, mendigando e trabalhando como lavador de pratos.

Na Inglaterra, Orwell passou a escrever na imprensa socialista e trabalhou como livreiro, professor e jornalista. Ganhava o suficiente para sobreviver. Nessa fase, publica Burmese Days (Dias na Birmânia), um romance antiimperialista. A partir de 1936, Orwell combateu na Guerra Civil Espanhola, numa milícia do POUM (Partido Operário de Unificação Marxista).  Essa experiência influenciou decisivamente suas concepções políticas, em especial, sobre o socialismo.
 Orwell ganhou fama a partir da publicação de A Revolução dos Bichos – em agosto de 1945, quando os EUA demonstravam o seu poderio armado, bombardeando Hiroshima e Nagasaki. Em 1949, publicou outra obra-prima da literatura política: Nineteen-Eighty-Four (1984). Pouco tempo depois, em janeiro de 1950, morreu de tuberculose.
Contra o capitalismo e o comunismo soviético
Crítico do totalitarismo, numa época em que a doutrina oficial marxista-leninista, capitaneada pelos países e partidos comunistas, era considerada dogma, a obra orwelliana afrontava diretamente os ideólogos do socialismo autoritário, isto é, a esquerda oficial. O autor de A Revolução dos Bichos se tornaria, então, um ícone dos que combatiam o stalinismo e todas as ideologias totalitárias.

George Orwell simboliza os dilemas vivenciados pelo intelectual que se engaja nas lutas sociais adotando uma perspectiva ideológica à esquerda: silenciar ou correr o risco de ser utilizado enquanto arma teórica contra as idéias igualitárias da esquerda. Não faltarão os democratas e liberais de última hora, os quais reduzem a crítica antiautoritária e anticapitalista à crítica ao socialismo em geral. Não por acaso, a obra orwelliana atrai simpatias e, para o crítico que se coloca no campo da esquerda e do socialismo, impõe o discernimento do seu alcance e caráter.

O ensaísta Louis Menand nota como o discurso orwelliano foi apropriado por amplos setores, com destaque para a classe média intelectualizada, tendo como efeito o esvaziamento do seu significado político original:

    “Nunca houve um exército tão heterogêneo do ponto de vista ideológico quanto esse exército orwelliano. Autor de "George Orwell - The Politics of Literary Reputation" [A Política da Reputação Literária, ed. Transaction Pub], publicado em 1989, John Rodden registrou o fato à exaustão. Ao longo dos anos, tal exército incluiu ex-comunistas, socialistas, anarquistas de esquerda, libertários de direita, liberais, conservadores: cada grupo com um uniforme diferente, mas com o mesmo button na lapela -"Orwell tinha razão". A única coisa que os admiradores póstumos de Orwell têm em comum, além do button, é o anticomunismo.” (FSP, 01.06.03)

Não é possível, nesse espaço, discutir as diversas versões de comunismo. Mas quem conhece minimamente a história do movimento comunista internacional sabe que são muitos os caminhos imaginados para se chegar à sociedade utópica. É claro que entre os admiradores de Orwell incluem-se muitos que se assumem comunistas, ainda que críticos ao modelo expressado pela ex-URSS e seus satélites. Sem essa observação, induz-se ao erro de considerar que todos os críticos à esquerda são anticomunistas.

Porém, ao agregar a simpatia de tendências políticas da direita à extrema-esquerda, Orwell demonstra o quanto é difícil ser um intelectual que critique concomitantemente a sociedade capitalista e o socialismo real. Esse intelectual encontra-se numa posição limítrofe: entre a esquerda oficial e a direita. A primeira, em geral, reage com virulência e se fecha em suas verdades; a segunda, tende a manipular seus argumentos. Como observa Menant:

    “As manipulações do texto de "A Revolução dos Bichos" não demoraram a acontecer. No fascinante estudo "The Cultural Cold War" [A Guerra Fria Cultural, ed. New Press], Frances Stonor Saunders relata que, logo após a morte de Orwell, a CIA (Howard Hunt era o agente encarregado do caso) comprou secretamente da viúva do autor os direitos para filmar o livro e mandou produzir na Inglaterra uma versão em desenho animado, por ela distribuída no mundo inteiro. Nessa versão, omite-se a cena final do romance, na qual já não se podem distinguir os porcos (isto é, os bolcheviques na alegoria de Orwell) dos exploradores de animais que os precederam, os humanos (ou seja, os capitalistas). Cria-se um novo fim para a história, no qual os animais atacam e tomam a casa da fazenda ocupada pelos porcos, libertando-se outra vez. Assim, depois de morto, Orwell foi submetido às fraudes e aos estratagemas da propaganda ideológica, pelas mãos dos combatentes americanos da Guerra Fria que viriam a exaltá-lo como o maior inimigo dessa mesma propaganda.” (Id.)

A manipulação da obra de Orwell não passou despercebida a vários dos seus comentadores. Thomas Pynchon observa que o sucesso alcançado por A Revolução dos Bichos teve como efeito a ocultação da posição do autor à esquerda da esquerda. Isso explica porque 1984 foi publicado nos EUA, “como uma espécie de planfeto anticomunista”, em plena vigência do macarthismo. Nessa época, o “comunismo” era oficialmente condenado como uma ameaça mundial monolítica, e a idéia de traçar uma distinção entre Stálin e Trótski seria considerada tão absurda quanto a de ensinar os carneiros a fazer sutis discriminações entre diferentes tipos de lobo”, enfatiza.

Nessa engenharia própria dos tempos da guerra fria, destrói-se a memória e o significado político da sua obra e militância são instrumentalizados. Prevalece a lógica da política enquanto antagonismo amigo-inimigo: Orwell é transformado em amigo do capitalismo. A vida parece imitar a arte! Em A Revolução dos Bichos, os personagens ilustram como a política adquire o status de antagonismo amigo-inimigo, o que transmuta todo e qualquer crítico ao socialismo soviético em inimigo e, portanto, amigo dos capitalistas. O inimigo é transformado no bode expiatório, necessário para justificar os insucessos da “construção do socialismo”.

Ao leitor desatento pode, portanto, passar despercebido o fato de que George Orwell critica tanto o capitalismo quanto os regimes de partido único. Os que raciocinam em termos da política amigo-inimigo têm dificuldade em aceitar essa crítica e tendem a incluí-lo entre os intelectuais que “fazem o jogo da direita”.
Adaptação para as telas do livro 1984
A função da dissidência

Para uns a função da dissidência é apenas cumprir o papel de bode expiatório; outros vêem os intelectuais dissidentes apenas como individualistas pequeno-burgueses incapazes de assumir a luta do proletariado; há quem imagine que tudo se resume ao narcisismo intelectualista, como se a vaidade fosse um privilégio. Desconsideremos os ressentidos, os que se consideram apóstolos da nova sociedade – que exigem a submissão do intelectual – e os fanáticos e intolerantes.

Para muitos, a dissidência se assemelha a um crime e o dissidente deve ser tratado enquanto criminoso – no mínimo, porque ele representa perigo à ordem estabelecida. Sociologicamente, há algo de verdadeiro nesse argumento. O insuspeito Durkheim, por exemplo, vê positivamente – sem trocadilho! – o papel do crime, e por conseguinte, da heresia:

    “Quantas vezes, com efeito, o crime não é uma simples antecipação da moral futura, um encaminhamento para o mundo futuro! Segundo o direito ateniense, Sócrates era um criminoso e a sua condenação era justa. Contudo, o seu crime, a saber a independência de pensamento, era útil não só à humanidade como também à sua pátria, pois servia para preparar uma moral e uma fé novas de que os atenienses necessitavam nesse momento porquanto as tradições em que se tinham apoiado até então já não estavam em harmonia com as condições de existência.” (DURKHEIM, 1983: 122)

E já que estamos tratando de heresias, recorramos a um religioso. Frei Betto, num livro sobre os que adotaram o caminho da luta armada contra a ditadura militar, escreveu:

“É através das dissidências que a história acerta os seus passos. Há um momento em que as possibilidades de uma proposta – religiosa ou política – parecem esgotar-se sob o peso dos anos, da rigidez de seus princípios, da inflexibilidade de sua disciplina, da intransigência de seus dogmas, da prepotência de seus líderes. Como a fonte seca à beira da estrada, incapaz de saciar a sede dos peregrinos que atraiu, a proposta vê-se rejeitada por seus discípulos dispostos a caminhar sem a tutela que lhes atrasa o passo”.  (BETTO, 1982: 46)


Historicamente, os dissidentes representam as novas forças sociais que anunciam o futuro. Por expressarem a crítica ao status quo, ficam à margem das instituições formais – ou não encontram respaldo no interior destas –, o que os impulsionam a criar novas instituições. Peter Burke observa que os humanistas renascentistas se opuseram ao saber convencional das universidades medievais:

“Embora a maioria dos humanistas tivessem originalmente estudado nas próprias universidades que criticava, as figuras mais criativas, de Petrarca a Erasmo, passaram a maior parte de suas vidas fora do sistema. Eram um grupo marginal, no sentido de Thorstein Veblen. Para encontrarem-se e discutirem suas idéias, fundaram instituições formais conhecidas, em deliberada homenagem a Platão, como “academias”. (BURKE, 27.08.00)

O saber formal não via com bons olhos os intelectuais oriundos de fora do círculo universitário (como Rousseau, filho de um relojoeiro; e, Diderot, filho de um faqueiro). As novas idéias sofriam a resistência do status quo acadêmico. “Adam Smith, por exemplo, foi professor de filosofia na Universidade de Glasgow. Quando quis escrever sua obra prima, a “Riqueza das Nações”, pediu exoneração de sua cátedra (em 1764)”, escreve Burke.

A dissidência política segue esse padrão. Em condições normais, isto é, quando sobrevive às lutas políticas, o dissidente termina por romper com a organização original, construir uma nova ou optar pelo isolamento. No campo acadêmico ou na política, desenvolve-se uma relação de amor e ódio: ao mesmo tempo em que nega as instituições oficiais, necessita-se de reconhecimento e legitimidade. Nesses casos, ou os hereges constituem suas próprias instituições ou se adaptam às existentes, combatendo para assumir o seu controle.

O interessante nesse processo histórico é que os antigos hereges, tão logo assumam posições de poder e constituam as novas igrejas, garantindo-lhes legitimidade e o monopólio, tendem a se tornar refratários às críticas: surgem novas dissidências e novos hereges.

É verdade que nem toda dissidência aponta para futuro. No pensamento político há os que imagem poder fazer a história retroceder: são os românticos e saudosistas vinculados a um passado lírico e imaginário que só existe em suas cabeças.Mas, a liberdade, como ensinou Rosa de Luxemburgo, é sempre a liberdade de pensar diferente. Tais idiossincrasias devem ser respeitadas...

A dissidência desempenha um papel positivo – por mais minoritário que seja seu pensamento, expressa a consciência crítica da maioria. Ou, como escreveu Durkheim:

    “A liberdade de pensamento de que gozamos hoje nunca poderia ter sido proclamada se as regras que a proibiam não tivessem sido violadas antes de serem abolidas. No entanto, nesse momento, esta violação era um crime que ofendia sentimentos que a generalidade das consciências ainda ressentia vivamente. Contudo, este crime era útil pois era o prelúdio de transformações que de dia para dia se tornavam mais necessárias. A livre filosofia teve como precursores os heréticos de toda a espécie que o braço secular abateu durante toda a Idade Média e até a véspera da época contemporânea.” (DURKHEIM, 1983: 122)

Durkheim relaciona a heresia na categoria de crime para frisar, do ponto de vista sociológico, que este é um fato social normal. O sociólogo é original ao tratar a heresia dessa forma. Pelo menos argumenta e demonstra o quanto o herege é necessário para a evolução social. Há quem não se dê ao trabalho de lê-lo, porém trata os dissidentes como criminosos – com a diferença de que, para estes, herege bom é herege morto.
O dissidente da dissidência

Intelectuais como Orwell não podem ser compreendidos através do raciocínio dualista ou amparado em “ismos”. Orwell expressa o tipo de intelectual que dificilmente se enquadra em rótulos. Ele pertence ao rol dos que privilegiam a liberdade da crítica, a independência em relação aos grupos e panelinhas. Indivíduos como Orwell são dissidentes solitários – mas também solidários – prontos a criticar a própria dissidência e a aceitar os riscos inerentes à essa atitude.

Em determinadas circunstâncias históricas, esses homens que se colocam à margem dos espaços socialmente reconhecidos, verdadeiros outsiders, acentuam ainda mais o seu isolamento político. A autenticidade tem seu preço. O intelectual que não se enquadra, vê-se obrigado, muitas vezes, a confrontar os próprios amigos. Quando há maturidade suficiente para diferenciar divergências políticas e teóricas dos procedimentos próprios do relacionamento pessoal é possível superar essa dificuldade. Do contrário, ele sofrerá o dilema entre se manter fiel à sua consciência ou à amizade.

O intelectual outsider de esquerda têm dificuldades em se ajustar à disciplina das organizações partidárias –as quais, em geral, tolhem a liberdade de crítica. Em sua solidão, ele tem consciência da fragilidade da sua posição. A política se traduz em relações de força, expressão de interesses que se organizam e atuam coletivamente. Sem a atuação direta na política, os intelectuais tendem a cumprir o papel de D. Quixote em seus combates aos imaginários moinhos de ventos. A política partidária, por seu turno, exige compromissos nem sempre éticos e, mais do que isso, pressupõe fidelidade a um “ismo” e respeito à disciplina. Não é fácil ser dissidente da dissidência.

Concluindo...

O dilema do intelectual que milita na esquerda parece insuperável. Os que se exercitam em procedimentos autoritários não se conformam com a sua independência intelectual e tentam encaixá-lo em algum “ismo”. Um amigo pode lhe confidenciar, por exemplo, que o considera centrista; outro verá resquícios da formação cristã (como se isso fosse um grave pecado!); há, ainda, os que o ignoram ou são condescendentes, tratando-o como figura excêntrica.

Incompreendido por uns, malquisto por outros, ele sabe que o essencial é não silenciar e assumir as responsabilidades inerentes à militância solitária. Apesar de tudo, vale a pena correr os riscos de ser catalogado como quixotesco. Antes isso do que a omissão. George Orwell é um exemplo.

ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Professor no Departamento de Ciências Sociais (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

CURIOSIDADES:   

A tumba de George Orwell


Apesar de ter sido sempre um cético e crítico das igrejas, George Orwell está enterrado num cemitério de uma igreja medieval no interior da Inglaterra. Orwell não tinha ligações aparentes com Sutton Courtenay. A decisão de enterrá-lo ficou a cargo de um conhecido da BBC que provavelmente escolheu-o por seu o mesmo cemitério que seu pai jazia.
Curioso notar em sua experiência na guerra civil espanhola - registrada no ótimo Homage to Catalonia (Lutando na Espanha) - a sua perplexidade com a simplicidade dos cemitérios espanhóis e de como sua própria sepultura é, irônicamente, simples "Como era bizarramente diferente de um cemitério inglês! Ali não se encontrava qualquer sinal de deferência para com os mortos. Tudo estava tomado de arbustos e grama, vendose ossos humanos espalhados por toda a parte. Mas o que realmente me surpreendeu foi a falta quase completa de inscrições religiosas nas lápides, embora todas datassem de antes da revolução. Apenas uma vez, se não me engano, vi o "Orai pela alma de Fulano , que e comum encontrar nas sepulturas católicas. A maioria das inscrições era puramente secular, com poemas ridículos a respeito das virtudes do falecido. Era uma sepultura, em cada quatro ou cinco, via-se uma pequena cruz ou referência perfuntória ao Céu, que via de regra fora arrancada por algum ateu, equipado com talhadeira e disposição." (op.cit. p.77).
As plantas crescendo sobre o túmulo é a prova concreta que Orwell não morreu. Está vivo em nossas mentes e, também, organicamente.

Arthur C. Clarke

16/12/1917 - Minehead, Somerset, Reino Unido
19/03/2008 - Colombo, Sri Lanka 


Nomeado Comandante da Ordem do Império Britânico, em 1998, aos 81 anos de idade, por relevantes serviços prestados à cultura do seu país, o escritor Arthur C. Clarke, desde menino apreciava ler velhos contos de ficção científica publicados em revistas americanas e tinha fascinação por astronomia. Após o curso secundário feito no Huish's Grammar School, a família de Arthur não tinha posses para matriculá-lo em uma universidade, então ele, desde cedo, começou a trabalhar. Seu primeiro emprego foi de revisor (auditor) de pensões no Departamento de Educação.

Em 1936, transferiu-se para Londres e devido ao seu interesse pelas ciências do espaço associou-se à British Interplanetary Society (Sociedade Interplanetária Britânica) e começou a contribuir com o "BIS Bulletin" e a escrever ficção científica.

Durante a Segunda Guerra Mundial, com 26 anos, entrou na Força Aérea (RAF) e desenvolveu habilidades no trato com a defesa, tornando-se especialista em radares. Essa experiência está relatada no seu romance semi-autobiográfico, Glide Path, publicado em 1963, entre dezenas deles que viriam a seguir. Seu cargo era de Oficial piloto, depois promovido a Oficial de Vôo e deu baixa como Tenente de Vôo.

Após a Segunda Guerra matriculou-se e graduou-se com distinção em Física e Matemática pelo King's College London. Começa nesse período as contribuições de Clarke à ciência, tornando-se presidente da British Interplanetary Society, de 1947-1950, cargo que viria a ocupar novamente em 1953.


O satélite geoestacionário

Essa contribuição para a ciência relaciona-se com o satélite geoestacionário, idéia que apareceu num conto de 1945 e depois defendida no artigo "Can Rocket Stations Give Worldwide Radio Coverage?" (Podem as estações de foguetes proporcionar cobertura de radio ao redor do mundo?): a utilização de mísseis para colocar objetos no espaço. Essas especulações futuristas se tornariam realidade 25 anos depois. O satélite em órbita permanece fixo em relação a um observador na superfície do planeta, colocada numa altitude de 35.786 km, onde a força centrífuga e a força centrípeta do planeta se anulam. Na verdade, o satélite realiza uma volta diária no mesmo sentido e velocidade da Terra, por isso, a idéia de estacionário. Hoje esse conceito é amplamente utilizado em telecomunicações e a órbita geoestacionária é conhecida como órbita Clarke.

No ano de 1956, mudou-se para Sri Lanka e passou também a se interessar pela fotografia e pela exploração submarina.

Escreveu dezenas de romances, contos e artigos científicos de não-ficção. Pode-se dizer que a ficção científica de Clarke influenciou até a própria ciência espacial.

A contribuição ao cinema

Sua obra ficará permanentemente ligada ao cinema devido à adaptação do conto "The Sentinel" que originou 2001: Uma Odisséia no Espaço, dirigido por por Stanley Kubrick, em 1968. Filme que teve a continuação com o título 2010: O Ano em que Faremos Contato, baseado em 2010: Odyssey Two (1982), este dirigido por Peter Hyams (1984). O filme 2001: Uma Odisséia no Espaço ajudou a popularizar a ficção científica, tornando-se um clássico do gênero, tanto quanto popularizar a obra de Arthur C. Clarke.


Diferentemente de outros filmes de ficção científica, em 2001 os conceitos básicos da ciência são respeitados, como a ausência de som no vácuo, o que pode não parecer muita coisa, mas é o maior erro, entre dezenas, da maioria de outros filmes do gênero.

Descreve o encontro de um misterioso monólito negro que emite sinais de uma civilização desconhecida que está chegando até o nosso planeta, desde os primórdios dos tempos. No século XXI, quatro milhões de anos depois, uma equipe de astronautas, na nave Discovery, controlada pelo computador inteligente HAL 9000, é enviada a Júpiter para investigar o monólito. Uma pane faz HAL tentar assumir o controle da nave e ir eliminando um a um os tripulantes. O filme também se destacou pelos efeitos especiais (ganhou o Oscar nesse quesito) e pela sua originalíssima trilha sonora, baseada em Richard Strauss (Assim Falou Zaratrusta), arranjadas e conduzidas pelo músico brasileiro Eumir Deodato.

Clarke escreveu ainda 2061: Uma Odisséia no Espaço III (2061: Odyssey Three, 1988) que não é uma continuação linear de seus livros anteriores 2001 e 2010, mas uma "variação sobre o mesmo tema", com os misteriosos monolitos e o cosmonauta Heywood Floyd, lutando contra o poder do computador Hal, desta vez aliado a uma raça alienígena disposta a ditar os rumos da galáxia.

Lançou ainda A Odisséia Final, em 1997 (3001: The Final Odyssey), onde se relata que a raça humana sobreviveu, apesar dos monolitos que dominam o sistema solar. O corpo do astronauta Frank Poole, morto há mil anos, na odisséia de 2001 é recuperado dos confins da galáxia. Poole retorna à vida consciente e retoma a viagem interrompida pelo computador HAL mil anos antes.

O legado

Arthur C. Clarke ocupa lugar privilegiado entre os escritores que se dedicaram à ficção científica, e é certamente, o mais importante deles todos, tendo o reconhecimento da comunidade científica e astronômica que batizaram com o nome Clarke, o asteróide 4923, e também da paleontologia, que igualmente batizaram de Clarke uma espécie de dinossauro herbívoro, o Serendipaceratops arthurclarkei, encontrado na Austrália.

Desde a década de 1960, Arthur convivia com uma seqüela da poliomelite, resultando numa síndrome pós-pólio, o que o obrigava a passar a maior parte do tempo numa cadeira de rodas.

O governo norte-americano chegou a reconhecer que Clarke "forneceu o impulso intelectual que nos levou à Lua".


Arthur C. Clarke - além de escrever ficção científica trabalhou com a ciência juntamente com cientistas e engenheiros espaciais no desenvolvimento da astronomia - deixa um legado sobre o uso pacífico do espaço.

Em 2008, aos 90 anos de idade, morre em Colombo, Sri Lanka, de complicações respiratórias, dias depois de aprontar seu último trabalho intitulado The Last Theorem, em co-autoria com Frederik Pohl. (AAR)


Fonte: The Arthur C. Clarke Foundation

Philip K. Dick


"O homem normal não sabe que tudo é possível" - Philip K. Dick

Philip Kendred Dick (1928-1982) era um alucinado. Daqueles típicos hippies drogados dos anos 60. Enxergava raios de luz rosa. Acreditava em reencarnações e em conspirações globais.
Acontece que o escritor, nascido em Chicago, mas californiano de formação, diferenciava-se da maioria dos paranóicos pelo teor da sua obra. Dick escreveu 36 romances - alguns em quinze dias, durante delírios turbinados por anfetaminas - mais cinco historietas curtas, produzidas no início de sua carreira, entre 1952 e 1956. Tecnicamente, sua ficção-científica não se aproximava da classe de um Arthur C. Clarke, estava mais para um estilo bem folhetinesco. Mas Dick sobreviveu ao tempo, superou sua geração graças aos temas abordados em seus livros. Há quarenta anos, o escritor discutia ética e experiências genéticas, liberdades individuais e problemas de identidade, controle de mentes e demais interferências humanas na ordem natural das coisas. O escritor era um visionário.
Muitas das experiências reais de Dick (foi abandonado pelo pai aos cinco anos de idade, assistiu à morte prematura das suas irmãs gêmeas recém-nascidas, além de casamentos desfeitos e problemas com drogas) serviram para construir uma personalidade pessimista. Em seus livros, o futuro sempre seria pior do que o tempo presente. A Los Angeles de Blade runner - O caçador de andróides (Blade runner, de Ridley Scott, 1982), fria, suja, escura e superpopulosa, era fiel ao pensamento do autor. O quarto imundo do cirurgião de olhos, exibido em Minority report, provavelmente foi imaginado assim por Dick.
Nos livros, fica evidente o descrédito no governo, nas autoridades. Seu primeiro romance, Solar Lottery (1955), exibe um mundo comandado por lógica e números: os governantes mundiais são escolhidos numa sofisticada loteria. Por outro lado, há também a porção metafísica. No fim da carreira, Dick produziu textos autobiográficos fantasiosos, descreveu experiências com alienígenas e combates entre o Bem e o Mal, baseados em preceitos religiosos.
A consolidação veio somente depois da sua morte. Por mais que o trocadilho seja perigosíssimo, seus seguidores ostentam o orgulho de se denominarem dickheads. Veneram uma personagem folclórica, suspeita de ter sofrido de esquizofrenia, mas capaz de imaginar coisas que hoje se tornaram reais, como a clonagem e os Big Brothers da vida.
Adaptadas ao cinema, suas obras tornaram-se cult-movies. Os dois exemplos mais célebres, Blade runner e O vingador do futuro (Total recall, 1990), serviram para impulsionar as carreiras dos diretores Ridley Scott e Paul Verhoeven. Mas, se o reconhecimento é merecido, a fama já causa alguns problemas. Com o tempo, adquirir o direito de seus textos tornou-se um investimento e tanto, quantia suficiente para inviabilizar inúmeros projetos cinematográficos.
Filmes como Gattaca (de Andrew Niccol, 1997), Pi (de Darren Aronofsky, 1998) e Matrix (The Matrix, de Andy e Larry Wachowski, 1999) somente esbarram em conceitos já imaginados pelo autor. Atualmente, além do filme de Steven Spielberg, apenas Impostor (2002), de Gary Fleder, arrisca-se a bancar uma adaptação direta. Uma pena. E pensar que a história de Minority report, altamente profética, foi publicada na revista Fantastic Universe no longínquo ano de 1956.


2002 também foi um ano significativo para a ficção cientifica. Entre inúmeros aniversários importantes, lá se foram dez anos da morte de Isaac Asimov, autor que deixou uma das obras mais volumosas e significativas tanto na ficção quanto na divulgação científica. E lá se foram também vinte anos cravados que Philip K. Dick (nascido em 1928) deixou esse mundo, para, quem sabe, estar "perdido em visões enevoadas de uma realidade arquetípica de protoforças cósmicas latentes no universo temporal" ("Clãs da Lua Alfa", 1964); e, como ele veio a falecer justamente durante a montagem final do filme "Blade Runner, O Caçador de Andróides", baseado em obra sua, tivemos, também, o aniversário deste que é considerado o segundo melhor filme de ficção cientifica de todos os tempos. A despeito desse fato, entretanto, na época em que foi lançado, grande parte de crítica e público não compreendeu a profundidade do filme e virtualmente o abandonou, para vir a redescobrí-lo muitos anos mais tarde e a amá-lo como a um "cult". E talvez esse fato se justifique (pelo menos em partes), pois somente no começo dos anos de 1990 é que foi descoberta a versão original do final, aquela que Ridley Scott (o diretor) foi proibido de utilizar na montagem que seria levada às telas (ele teve de fazer uma versão alternativa, mais "soft", devido à pressão dos produtores). Essa versão alternativa não agradava ao diretor e nem mesmo aos atores envolvidos com a produção (incluindo Harrison Ford, o cabeça do elenco), mas, por motivos comerciais, ela teve de ser utilizada. Só depois que a versão original misteriosamente apareceu, em 1991, é que se percebeu como era medíocre e patético aquele final tipicamente hollywoodiano que os produtores impuseram; além de quebrar toda a dramaticidade da história, esse final (feito com sobras de "O Iluminado",1980, de Stanley Kubrick), funcionava unicamente como um verdadeiro anticlímax, sem deixar margem para qualquer tipo de especulação (somente pode perceber isso quem sente um arrepio na espinha quando Deckard, o personagem central, antes de entrar no elevador com Raquel, para seguir adiante num futuro completamente indeterminado, pisa naquele unicorniozinho de papel: nunca um elemento tão insignificante significou tanto).
"O Caçador de Andróides" ("Do Androids Dream of Eletric Sheep?", 1968) foi o primeiro livro de Philip K. Dick que tive a oportunidade de ler (talvez por ser o mais fácil de se encontrar nesse país de oportunismo comercial acima de qualquer suspeita) e desde então caí fascinado pela obra desse autor complexo e definitivamente inovador. Embora nem se compare a Asimov no aspecto produtivo, Dick é igualmente idolatrado não só nos Estados Unidos, mas em todo mundo. Em vida, não foi levado muito seriamente, é verdade, mas bastou morrer para virar uma espécie de culto entre os amantes do gênero. Principalmente depois do lançamento do filme de Scott, que, a exemplo do também fascinante "Alphaville" (1965), de Jean Luc Godard, é um dos poucos "sci-fi noir" legítimos, a despeito do fato de ser ambientado numa sufocante megalópole cyberpunk que é a Los Angeles de 2019. É verdade que Dick não foi um inovador absoluto, partindo do nada para remodelar os parâmetros de um gênero que, de certa forma, caminhava numa mesmice crescente. Quem as obras definitivas de Theodore Sturgeon "Além do Humano", "O Homem Sintético" e "Vênus mais X" sabe do que estou falando quando me refiro ao tipo de inovação que Dick iria propor em sua obra (Sturgeon foi, ao que parece, o primeiro dos autores da velha guarda da FC americana a fazer a transição da chamada era clássica - voltada aos aspectos "hards", tecnológicos - à nova geração, ao "soft", de preocupação psicológica e interior; Heinlein veio depois). Mas o fato é que Dick - um dos legítimos frutos diretos dessa nova era - foi o primeiro a se aprofundar verdadeiramente nestes aspectos mais obscuros e ignorados da ficção científica, ali ficando até morrer. Ao contrário de muitos outros autores, ele não quis se projetar para fora, mas para dentro do ser humano, fato que o tornou um dos verdadeiros pais da camada "New Wave" no início da década de 1960. Por trás de seus fascinantes robôs indagadores e seus famosos conflitos de realidade ou jogos de paranóia se escondia uma complexidade quase sobre-humana de indagações filosóficas e metafísicas. Ao longo de seu trabalho, e ainda que de maneira completamente desorganizada, Dick explorou à exaustão todas as possibilidades das questões "realidade" e "não-realidade", ou os diversos modos como ambas podem ser interpretadas. No famoso "A Formiga Elétrica" (1969), por exemplo, um homem comum acorda um belo dia num hospital e descobre, para seu total espanto, que é um autômato, um simulacro enganado por uma realidade o tempo todo forjada em seus próprios mecanismos vitais. Mas essa não é a maior das surpresas... Em "Identidade Perdida" (1974) ocorre algo semelhante; porém, dessa vez toda a distorção provocada naquilo que parece ser o real é causada pela utilização da poderosa droga KR-3, que não só é capaz de alterar o equilíbrio da realidade de quem a ingere, mas também afetar esse equilíbrio de forma a distorcer tudo ao seu redor, no processo. No brilhante "Se Benny Cemoli não existisse" (1963) a distorção da realidade é causada de maneira intencional pelos personagens, tendo em vista enganar e saciar os interesses inescrupulosos de uma organização de reabilitação da Terra pós-guerra nuclear através de um jornal homeostático, que falsifica informações. Já no desconcertante "Ubik" (1969) a questão é levada às ultimas conseqüências, quando vemos a realidade se desdobrando em facetas inimagináveis, não só do ponto de vista individual, mas também coletivamente, até mesmo após a morte.
Insaciável "descascador de cebolas" que era, com o passar dos anos Dick se aprofunda ainda mais no tema, tornando-o cada vez mais complexo. Se a religião (fenômeno que o fascinava) vinha aparecendo de forma relativamente superficial em suas histórias até então, o mesmo não se daria com os livros que iria produzir a partir de "Dies Irae" (1976), que seria seguido por "O Mistério de Valis" e "Invasão Divina" (ambos de 1981), formando uma espécie de trilogia cujos contornos haviam sido levemente delineados no surpreendente "Labirinto da Morte" (1970), onde lança algumas interessantes idéias a respeito dos mitos divinos e do possível contato.desses mitos com seus seguidores, numa espécie de alienação "sub-realística". Em "O Caçador de Andróides" o conflito de realidade - e suas quase sempre insuspeitas trocas de valores - é trabalhado de maneira mais sutil, quase alegórica, mas presente. Nesse livro, a alienação sub-realística causada pela religião é apresentada na figura messiânica de Mercer (um guru de valores duvidosos, para dizer pouco), que se manifesta a seus seguidores através de uma "caixa de empatia" (uma espécie de televisão inter-dimensional capaz de estabelecer contato físico), fornecendo um sentido para suas existências - um sentido aparentemente enganoso, se não bastasse (mas sempre devemos lembrar que com Dick nada é o que aparenta ser...) Deckard, afinal, pode ter sido enganado por uma realidade falsa e ser um andróide; embora esta possibilidade não esteja completamente implícita no romance, é fácil perceber que o autor, bastante afeito a colocar dúvidas e mais dúvidas existenciais em seus personagens, deixa bastante perguntas sem respostas quanto a própria objetividade da trama. A questão é: em quem acreditar, afinal? (e essa pergunta se estende a toda obra do autor). No já citado "A Formiga Elétrica" o autor nos fala, através de seu personagem: "a objetividade não passa de um dispositivo sintético que lida com a universalização hipotética de uma infinidade de realidades subjetivas". No glorioso volume de contos sobre robôs "Máquinas que Pensam" (L&PM Editores, Porto Alegre, 1985), organizado por Patricia S. Warrick e Martin H. Greenberg e editado por Isaac Asimov, vemos a seguinte referência: "Desde a primeira obra que publicou, nos idos de 1950 e poucos, Dick se interessou por invenções cibernéticas e o efeito que produzem sobre criaturas humanas. Ele e Asimov figuram entre os escritores mais prolíficos de histórias de robôs e computadores. Dick se mostra mais pessimista que Asimov ao considerar que o homem há de sempre utilizar a inteligência da máquina com critério, pois, segundo seu ponto de vista, a natureza humana está imbuída de um elemento destrutivo, que a leva, com grande freqüência, a empregar mal o poder que as invenções cibernéticas colocaram a eu alcance. Um dos temas que repete com mais freqüência é o de que o homem se transforma, cada vez mais, na máquina ou robôs criados por ele".
Gramophones DigitaisO único incômodo de se ler Philip K. Dick atualmente é que ele tinha a incorrigível mania de ambientar suas histórias em futuros demasiadamente próximos. Seus melhores livros foram escritos na década de 1960 e na maioria deles a trama se passa nas décadas de 80 e 90, de modo que seu futurismo complexo e engenhoso, de uma forma ou de outra, acaba caindo no anacronismo - quase cômico - de nosso passado medíocre... O próprio "Caçador de Andróides" é um exemplo: apesar de ser um dos livros mais complexos e imaginativos da ficção científica, com uma das melhores (senão a melhor) especulações sobre eterno conflito homem-máquina, toda a sua trama, se analisada sob critérios "pouco pacientes", digamos assim, corre o risco de cair na banalidade pelo simples fato de ter sido ambientada no início da década de 1990 do nosso passado - o nosso passado medíocre... Não é à toa que grande parte dos escritores de FC prefere não arriscar na sorte e jogar suas histórias para um futuro longínquo, que proporcione uma dose incalculada de imaginação e possibilite especulações das mais extravagantes na área que tange à tecnologia sem que isso signifique estar pisando terreno pantanoso. (Lembrando que no livro "Do Androids Dream of Eletric Sheep?" o ano em questão é 1992, enquanto no filme a história se passa em 2019).
Embora Ridley Scott tenha feito um trabalho excepcional, criando um filme que não é só considerado um dos melhores da ficção cientifica, mas também como um dos melhores da história do cinema, é claro que o livro é mais complexo, e acho que não poderia ser diferente. Na "Science-Fiction - The Ilustrated Encyclopedia" (Dorling Kindersley Book, London, 1995), John Clute nos diz que o livro não ficou famoso apenas por causa do filme de Scott, mas única e tão somente pela sua própria complexidade, e ainda aponta Dick com um dos mais influentes autores da América na segunda metade do século XX. Não pela sua "ciência", é claro, pois o autor sempre foi bastante arcaico neste aspecto, e nunca se preocupou muito com ele, a bem da verdade; mas sim pelas suas idéias, sempre ousadas e conflitantes, sempre interrogativas. Que no "Caçador de Andróides", entretanto, ele tenha sido incrivelmente moderno do ponto de vista científico, talvez seja pura coincidência. Sim, porque numa época em que as palavras "andróides" e "robôs" significavam seres de metal quase sempre feitos para durar indeterminadamente, mais do que ninguém ele se colocou à frente de seu tempo para especular em torno do que hoje não é mistério nenhum: clonagem, inseminação artificial, fertilização "in vitro", etc. Se suas ovelhas eram elétricas, seus andróides eram muito mais que isso. E que o digam os antiquados aparelhos de teste "Voigt-Kampff" ("mais humano que os humanos", era o slogan). Mesmo na época do filme (começo dos anos 80) essas idéias eram altamente especulativas e, ao contrário do que se vê hoje diariamente, não tinham um contorno definido fora do contexto dos autores de FC. Daí a dúvida: afinal, quem impulsiona quem?: a FC inspira a ciência ou a ciência inspira a FC? Até hoje ninguém conseguiu responder essa pergunta... Partindo desse princípio sólido e sofisticado por si só, Dick escolheu dois paralelos específicos para desenvolver suas especulações, dois elementos distintos no romance: o primeiro, e mais importante, se refere a desumanização crescente do ser humano em vista de seus poderes de criação; e o segundo, por contraste, a tentativa de retornar à humanidade perdida através do amor tardio aos animais, agora extintos. Trocando em miúdos: o homem aprendeu a criar andróides ultra-sofisticados capazes até de superar seus criadores em indagações metafísicas e ao mesmo tempo destruiu grande parte da fauna e flora terrestres, as quais não consegue reproduzir a contento. Portanto, os animais verdadeiros que ainda restaram nesse mundo caótico de poluição e degradação social acima de qualquer controle valem mais - e fácil presumir - que qualquer ser humano. Acabaram por se transformar no mais novo símbolo de status.
Deckard ama os animais, mas tem dificuldades em conseguir um verdadeiro devido aos seus parcos recursos financeiros. Para conseguir um, não vê outra alternativa senão liquidar - ou retirar - um perigoso grupo de andróides invasores - os NEXUS-6, proibidos na Terra e utilizados somente nas colônias espaciais, como escravos -, os mais avançados e capazes da Rosen Corporation (no filme é Tyrell Corporation), pelo que seria convenientemente remunerado. Andróides que, acuados como verdadeiros animais, acabam por desenvolver um sentido de percepção ainda mais aguçado que o dos humanos verdadeiros - talvez pelo fato de que viverão por apenas quatro anos, após o que serão automaticamente desativados. (René Descartes, o filósofo francês, considerava os animais como meras máquinas pelo simples fato de serem destituídos da "substancia espiritual" - a alma - necessária para dar valor e dirigir um organismo; e aí vem a pergunta: o que esses revoltados andróides invasores achariam dessa idéia?...). As coisas perdem seus valores - ou trocam seus valores - e essa questão dos animais se tornado muito mais importantes do que andróides orgânicos inteiramente capazes de compreender o sentido e o significado da existência foi parcialmente abolida na versão em filme de Ridley Scott, assim como a referência a Mercer e à caixa de empatia. O diretor e seus roteiristas Hampton Fancher e David Peoples (com uma mãozinha do próprio Philip Dick, segundo consta) preferiram abordar apenas a primeira questão (a do ser humano se confundindo e perdendo seu status pelos seus próprios simulacros, mais objetivos) e deixar de lado essa espécie de contraste existencial causado pela tentativa de redenção no amor aos animais. No entanto, nessa diferenciação de posturas, o filme ganha pontos por inserir mais explicitamente a idéia - esmagadora - de que o próprio Deckard, afinal de contas, pode ser um andróide.
E Bestas ElétricasOu não. Existem dois finais, apesar de tudo, e embora saibamos qual foi a intenção inicial do diretor, a questão perdura. De qualquer modo, sendo ou não um andróide, a idéia não dilui o impacto, pois o que presenciamos com mais intensidade é a agonia dos seres artificiais, os "replicantes", que lutam por uma humanidade que a própria humanidade está desprezando; eles querem algo que está sendo jogado fora e não se conformam de não conseguirem. Percebem que são no mínimo iguais a seus criadores, mas com somente quatro anos de vida, e querem mais. O filme retrata esta situação tão realisticamente que é impossível ficar indiferente com a espécie humana naquela cena (a mais forte) em que o replicante Roy Betty (interpretado magnificamente por Rutger Hauer), após salvar Deckard de se precipitar do alto do edifício, expõe os seus sentimentos da seguinte forma: "Eu vi coisas como vocês nunca acreditariam. Naves de ataque em chamas perto da Borda de Órion. Vi a luz do farol cintilar no escuro, na Comporta Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo... como lágrimas... na chuva. Hora de morrer".
Após lutar com todas as suas forças e todos os seus instintos de sobrevivência o replicante morre, deixando um atônito Deckard com a alma em frangalhos. Com o seu próprio sentido de existência deformado. Com a dúvida. Nada mal para "algo" que fora criado unicamente para servir como besta de carga móvel do programa de colonização espacial. Mas e quanto a Deckard? Viverá? Terá esse direito? Raquel (Sean Young), por quem, aliás, está apaixonado, sabemos desde o princípio ser uma andróide. Mas e quanto a ele? É possível obter a resposta no brilho impiedoso dos olhos de Gaff (Edward James Olmos), aquele oficial de polícia com mania de dobraduras. "Afinal", complementa o próprio Gaff, "quem vive?". Talvez os replicantes estejam lutando por algo que não vale a pena.
 
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