Na crítica da primeira parte de Harry Potter e as Relíquias da Morte,
disse que três tipos de público vão aos cinemas conferir a grande
estreia. Os fãs que devoraram todos os livros. Os fãs que não tocaram
nos livros, mas adoram os filmes. E os fãs de filmes de ação e magia. Se
o filme de Dezembro era um presente para o primeiro público, este se
torna satisfatório para todos os três, apesar de não ser perfeito para
nenhum deles.
O mundo inteiro, bem ou mal, esperava esse momento. Harry Potter
foi a saga da década, oito filmes fenômenos de bilheteria, onde
acompanhamos o crescimento dos atores junto aos personagens. A fórmula
já estava pronta, e um bom diretor como David Yates e um bom roteirista
como Steve Kloves não tinham como errar a ponto de tornar o filme uma
abominação. Era só fechar as pontas que para os fãs dos livros ou dos
filmes seria sempre especial. Mas, com uma construção consistente, um
clima de tensão, melancolia e expectativa ele funciona também para
qualquer amante de um bom cinema de ação e drama. A batalha de Hogwarts,
onde a maior parte da trama se encontra, é um verdadeiro campo de
guerra, bem dosado, com sequências orquestradas e sensíveis ao mesmo
tempo. Mas, em muitos momentos parece que falta algo para se tornar
memorável. A começar pelo roteiro.
A
história começa exatamente onde a primeira parte terminou. Até os
personagens chegarem ao castelo, então, temos o mesmo ritmo lento,
acompanhando os três protagonistas que possuem uma pista sobre o
paradeiro de mais uma das Horcruxes. A idéia é clara, apesar de não
existir um plano, eles precisam descobrir todos os artefatos e
destruí-los antes de enfrentar Voldemort. Não há erro
na condução da curva dramática da história, o problema é que Steve
Kloves teve que lidar com omissões importantes, principalmente, nos três
últimos filmes. Então, muita informação foi jogada sem muitas
explicações tornando a compreensão quase impossível em alguns momentos
caso o espectador não tenha lido o livro. E quando a explicação vem,
fica muito no verbal, sem conseguir transcrever para o visual, o que
deixa cansativo para os que leram o livro e pouco explicativo para os
que não leram.
Ainda assim, a história consegue ser contada. Um dos momentos mais
emocionantes do filme é bastante resumido em comparação com o livro, não
sendo explicada boa parte dos detalhes daquela história, mas passa o
recado em um clipe visual de tirar o fôlego. A montagem dessa sequência é
bastante feliz ao resumir todos os acontecimentos que Harry Potter
vê na Penseira, destacando o essencial para que os espectadores
compreendam as informações que estão sendo passadas ali. Isso sem falar
em toda a carga dramática desse momento e do seguinte que demonstram
muitos dos valores da série. Afinal, parafraseando Amenar Costa do Salada Cultural, Harry Potter é amor. Os maiores valores da série são a capacidade de J.K. Rowling falar sobre amor, vida, morte e amizade em uma história interessante e complexa.
Mas,
além dos méritos de Rowling que construiu um capítulo final para sua
saga sem medo de matar personagens, nem dosar as lutas com os lutos,
David Yates conseguiu traduzir todo o clima que invade o castelo nesses
momentos finais. Há uma tensão no ar, tudo é sombrio. Desde a cena do
banco, onde o perigo é constante; passando pela rotina de Hogwarts, onde
os alunos marcham como se estivessem em um quartel; até, finalmente, a
preparação para a batalha. A cena em que Minerva convoca o castelo para
se defender é incrivelmente bem orquestrada, o close na
professora, os pulos das estátuas, suas palavras. O momento em que os
professores se reunem para conjurar os feitiços de proteção também é
grandioso. Então, a câmera se afasta e encontra o exército de Voldemort
no morro observando o local. A guerra vai começar e a ansiedade é
grande.
David
Yates e Steve Kloves são bastante felizes nesse momento ao melhorar
toda a batalha, que é descrita com pouca eficácia por Rowling. Em muitos
momentos, ficamos em dúvida de algumas locações, ações e ritmo das
cenas, no filme tudo fica muito mais visual e de fácil compreensão. O
problema é que acabamos sendo conduzidos por Harry Potter
e vendo pouco das lutas paralelas, além de nos negar acompanhar o
desenlace de alguns personagens. Ainda assim, eles mantêm a boa divisão
entre cena de luta e pausa para observar as consequências. O problema é
que por não ter muito tempo, a emoção é deixada de lado, ficando apenas
um sentimento de pesar por alguns acontecimentos. Não há tempo para
chorar os mortos e os realizadores passam o recado pela boca de Neville:
"pessoas morrem todos os dias". Isso acaba sendo um dos pontos
negativos do filme. Em vários momentos, a gente pede mais emoção e
grandiosidade nas cenas.
Falando
em personagem, todos estão defendidos por interpretações esplêndidas.
Após anos, os atores parecem mesmo ter encarnado aqueles personagens,
mesmo Daniel Radcliffe tão malhado pela crítica em geral. Uma a destacar
é Maggie Smith, que aqui mostra a verdadeira força da professora Minerva McGonagall e está ótima em todas as cenas. Além da eternamente admirada Helena Bonham Carter, sempre esplêndida como Bellatrix Lestrange, que nesse filme tem o plus de ter que interpretar Hermione, o que faz com maestria. Mas, não há como negar que o filme é de Ralph Fiennes. Se ele já tinha impressionado ao encarnar o Lord Voldemort desde o quarto filme, Harry Potter e o Cálice de Fogo, aqui as nuanças de sua interpretação são de arrancar aplausos. Conseguimos ver terror, medo e ódio em pequenos gestos.
Os efeitos especiais, é de se esperar, são impecáveis. A construção dos duendes do Banco Gringotes
estão impressionantes, assim como o dragão, os gigantes, e todos os
seres mágicos que Yates permite estarem na guerra. O filme acaba não
deixando os fantasmas de Hogwarts nas cenas, nem os
centauros, por exemplo. Dos fantasmas apenas a Mulher Cinzenta aparece e
sua história é pouco explicada, ao contrário do livro. Mas, mesmo com
algumas falhas na narrativa, o visual é incrível, as batalhas, feitiços
lançados, vôos, destruições e viagens por lembranças na Penseira, tudo
na medida certa. Agora, o efeito 3D é completamente dispensável. Em
apenas uma cena temos algo saltando à tela, e a profundidade é percebida
em algumas cenas, mas na maioria das vezes fica claro que Yates nem
pensou na tecnologia, já que constrói essa sensação de profundidade com o
velha fórmula de desfocar a imagem. Raramente vemos o efeito com toda a
cena em foco. Mas, nem isso tira o brilho da boa produção.
Harry Potter e As Relíquias da Morte - parte 2 pode não
ser o filme da década. Há erros e acertos, não há dúvidas, para todos
os públicos. A sua força, no entanto, não está em suas duas horas e dez
de projeção. É o ponto final de uma saga que movimentou a vida de
milhares de pessoas nesses dez anos de cinema e quatorze anos de
literatura. É um fenômeno massivo e por si só um acontecimento a ser
admirado.
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